Acordei com a ideia fixa na cabeça: -Vou voltar a minha vida antiga!
Fui em direção a Alphaville, lá fui a busca de um novo lar. Precisava de um Taxi, quem disse que paravam pra mim? Estendia a mão e nada, não sou tratado como gente pois estou com roupas sujas, barba grande e carrego um saco preto nas costas. Não teve jeito, apelei, ví um taxista parado, tirei as notas da carteira e falei: -Me leva pra Alphavile urgente! Pronto, assim foi fácil!
Chegando lá a missão foi entrar em algum condomínio (dos 12 Alphas). Impossível, a segurança de lá é muito rígida, nem carro chique sem autorização não entrava, imagine eu feito mendigo.
Fui procurar uma imobiliária, nada, fui barrado na primeira e quando tentei a segunda já era tarde, passava das 18 e todas estavam fechadas. Já estava cançado andei muito a toa.
Bem, o jeito foi dormir em algum canto e esperar o amanhã em busca de uma casa. Tive que me esconder, em Alphaville existe uma polícia local que retira os moradores de rua.
Estava bem num canto, perto de um canteiro; durmi…
O cheiro de gasolina me acordou, um pulo eu dei, quatro playboys um fósforo riscou, fogo…
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Na madrugada do dia 20 de abril de 1997, o índio Galdino Jesus dos Santos, 44 anos, do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, do estado da Bahia, dormia no ponto de ônibus de uma praça pública de Brasília. Tinha ido para a Capital com uma delegação de oito lideranças de seu povo, com o objetivo de buscar apoio para as suas reivindicações no sentido de recuperação do território, invadido por muitos fazendeiros.A terra tradicional dos Pataxó Hã-Hã-Hãe é denominada de Terra Indígena Caramuru-Catarina Paraguaçu, possui 53.400 hectares e foi demarcada em 1934.
Naqueles dias, uma marcha nacional do MST havia chegado à cidade. Galdino participou da recepção aos sem-terra e de reuniões destes com autoridades, inclusive com o presidente da República da época, Fernando Henrique Cardoso, para colocar também as reivindicações indígenas. Galdino dormia no ponto de ônibus porque chegou tarde das reuniões na pensão onde estava hospedado. A dona da pensão se recusou a abrir a porta para ele.
Eram cinco horas da manhã quando Galdino acorda completamente em chamas. Socorrido por jovens que voltavam de uma festa, foi levado para o hospital. Tinha queimaduras em noventa e cinco por cento do corpo. Entrou logo em coma e faleceu às duas horas da manhã do dia 21 de abril de 1997. Antes de ficar inconsciente, perguntava para os médicos que o atendiam: “Por que fizeram isso comigo?”
Essa pergunta, até hoje é difícil de ser respondida. Essa pergunta sacudiu a sociedade brasileira na época, chocada com o horror da crueldade que ciclicamente nos atinge, às vítimas em primeiro lugar e, em seguida, a todos nós, em nossa auto-imagem de humanidade e civilização.
Os autores da barbárie foram cinco jovens de classe média brasiliense, um deles menor de idade. Numa noite vazia, resolveram atear fogo numa pessoa que dormia indefesa para, segundo declarou o menor, se divertirem. Cometido o crime, fugiram, mas um outro jovem que passava por ali, um chaveiro, anotou o número da chapa do carro dos assassinos e o entregou à polícia.
Depois da brutalidade, os criminosos foram para casa dormir, como se nada tivessem feito. Foram identificados e presos. Diante da comoção nacional ainda quiseram se defender, com o seguinte argumento: “Não sabíamos que era um índio, pensávamos que era só um mendigo.” Ou seja, em mendigos é permitido atear fogo.
Por Paulo Maldos <<<<<<<<<<<<<<<<





